
Dando continuidade ao texto inaugural deste espaço, gostaria de deixar registrado algo que considero importante: o fato de termos perdido a capacidade de ter uma visão holística do mundo, de enxergar para além de tecnicidades ou de raciocínios herméticos.
É claro! Pesquisar é e continuará sendo importante. Os doutores têm seu papel na humanidade e seria pretencioso demais afirmar o contrário. As publicações, congressos, revisões de pares e testes cegos permitem, aliás, com que a fronteira técnica de uma sociedade avance a ponto de poder produzir mais conforto e bem-estar para seus membros e, através de externalidades, para os demais povos, de modo geral.
A questão aqui não trata disso; cada um com seu cada qual. Uma página de rede social, um blog ou uma coluna de jornal, por mais rigorosos que sejam em suas afirmações e apurações, cumprem um determinado papel: fazer uma análise suscinta e personalizada de um tema e convidar os leitores a refletirem acerca do mesmo.
Tudo que ultrapasse esse escopo e pretenda se definir científico demais já extrapola as características próprias do terreno. Nesse caso, vale partir para um paper, para um ensaio ou – por que não? – diretamente para uma dissertação ou mesmo uma tese. Quanto a isso, redes sociais e blogs servem, quando muito, para fazer uma divulgação científica do trabalho de terceiros.
Mas não quero me afastar muito do que pretendia tratar aqui inicialmente. Sim, como dizia, perdemos a capacidade de olhar para a realidade integrando os diferentes saberes em nossa análise. Ou se é filósofo, ou se é economista, ou se é historiador isoladamente para examinar um determinado evento, com suas próprias e exclusivas ferramentas analíticas do seu campo de estudo, recorrendo às consagradas fontes bibliográficas que não podem intersectar outros saberes, sob o risco de perder credibilidade ou de tornar-se mera superficialidade.
Acredito, contudo, que um bom generalismo não faça mal a ninguém; pelo contrário, é de suma importância conhecer de tudo um pouco, ainda que não se chegue ao estado da arte de todos os campos do saber. Este é o espírito, vale dizer, da filosofia grega por excelência. Costuma-se dizer que o pórtico da Academia de Platão contava com o seguinte registro: “Quem não for geômetra não entre”. O próprio Aristóteles, seu aluno, viria a ser, além de filósofo, um intelectual interessado por física, poética, retórica, psicologia, geologia, botânica e medicina, havendo escrito tratados a respeito de todos esses assuntos. E o estudo simultâneo de temas como física e ética arrastou-se desde a era dos pré-socráticos, como Demócrito e Pitágoras, aos anos dos filósofos helenistas, como Epicuro e os estoicos. Limitar-se a olhar uma faceta da realidade sob o prisma de um só saber é algo moderno.
Guiado não tanto pela profundidade dos gigantes do pensamento antigo quanto pelo seu genuíno interesse em dirigir um olhar generalista e interessado à realidade e aos seus fenômenos sociais, políticos e culturais, o esboço deste projeto almeja contemplar – dentro dos limites do possível – o contorno das coisas, convidando o leitor para um exercício de conversio, ou seja, realizar uma volta, uma mudança de seu olhar habitual e passar a dirigir sua atenção para alguns detalhes do dia-a-dia até então ignorados.
Até breve,
O Contorno das Coisas

